Cabo-verdiano: unidade na diversidade, pluricentrismo e identidade linguística além da classificação Santiago/São Vicente – fundamentos históricos, sociolinguísticos e educativos
(Não, à escolha de variedades).
Não é adequado encarar apenas duas variantes do cabo-verdiano (geralmente Sotavento e Barlavento) porque essa simplificação é cientificamente insuficiente, sociolinguisticamente problemática e politicamente sensível. Vou apresentar as razões principais, de forma clara e organizada.
1. Razões linguísticas (científicas)
O cabo-verdiano é um continuum dialetal, não um sistema com apenas duas variantes.
- Cada ilha desenvolveu a sua própria variedade, por causa de processos históricos, demográficos e de contacto linguístico diferentes.
- As diferenças não ficam só na pronúncia, mas também incluem:
a) uso de tempos verbais e marcadores de aspeto;
b) palavras específicas de cada região;
c) como se fala, com entonação e ritmo;
d) como se usam os pronomes e as estruturas das frases.
Agrupar todas as variedades em apenas duas apaga diferenças reais entre ilhas como Santiago, Fogo, Maio, São Vicente e Santo Antão, que não são totalmente compreendidas uma pela outra em todos os níveis. Do ponto de vista linguístico, o cabo-verdiano é um continuum dialetal, um conceito que é amplamente discutido na sociolinguística e na crioulística. Segundo Bickerton (1981) e Mufwene (2001), línguas crioulas surgem de processos históricos complexos e naturalmente têm variação interna significativa. No caso do cabo-verdiano, Manuel Veiga (2004) destaca que as variedades insulares têm diferenças sistemáticas na pronúncia, na estrutura das frases e no vocabulário, o que impede de reduzi-las a apenas dois grupos. Por exemplo, o sistema verbal do crioulo de Santiago difere muito do de São Vicente no uso de marcadores de tempo, modo e aspeto. Para Lang (2012), tentar agrupar variedades crioulas em blocos binários ignora a natureza gradual das línguas de contacto, resultando em classificações artificializadas. Assim, considerar apenas duas variantes não reflete de forma precisa a real estrutura linguística do cabo-verdiano.
2. Razões históricas
A divisão entre Barlavento e Sotavento é uma criação mais recente, principalmente relacionada à administração e ao ensino.
- A colonização das ilhas aconteceu em diferentes momentos, com:
a) origens étnicas africanas variadas;
b) mestiçagem em ritmos diferentes;
c) contato com o português em níveis distintos.
- Um grupo de ilhas (como Fogo e Brava) seguiu trajetórias sociais e culturais únicas, que não se explicam apenas pelo fato de pertencerem ao grupo Sotavento.
Reduzir tudo a duas formas linguísticas significa simplificar a história da língua de forma pouco precisa. A diversidade linguística em Cabo Verde está profundamente ligada à história única de cada ilha. Estudos de Carreira (1983) e Silva (1985) mostram que cada ilha teve misturas diferentes de populações africanas, europeias e dinâmicas socioeconômicas. Corsino Tolentino (2007) explica que ilhas como Fogo e Brava desenvolveram culturas e formas de linguagem próprias, influenciadas por elites educadas, contatos com pessoas que migraram para outros lugares e formas de ensino diferentes. Reduzir essas realidades a apenas uma classificação de Sotavento ignora essas particularidades. Segundo Lucchesi (2009), classificações linguísticas muito simplificadas tendem a esquecer os processos locais que formaram as línguas e prejudicam a análise científica.
3. Razões sociolinguísticas
A língua também é identidade e pertencimento.
- As pessoas se identificam primeiro com a variante da ilha em que nasceram, e não com uma divisão em dois grupos.
- A imposição de duas variantes pode:
a) criar sentimentos de exclusão;
b) criar hierarquias entre formas de falar;
c) favorecer uma forma a prejuízo das outras.
Do ponto de vista sociolinguístico, isso não respeita a diversidade da comunidade cabo-verdiana. A sociolinguística mostra que a língua também marca identidade. Segundo Labov (1972), as formas de falar ganham valor social porque são reconhecidas pelos próprios falantes. Em Cabo Verde, como observa Dulce Almada Duarte (1998), as pessoas se identificam principalmente com a forma da sua ilha, que funciona como sinal de pertencimento. A imposição de apenas duas formas pode ser vista como uma tentativa de apagar identidades, especialmente das ilhas que não são consideradas referência. Para Bourdieu (1991), escolhas linguísticas nunca são neutras, pois envolvem relações de poder. Assim, valorizar algumas formas a prejuízo de outras pode reforçar desigualdades sociais e regionais.
4. Razões políticas e educativas
No contexto da padronização, ensino e oficialização do cabo-verdiano, reduzir o idioma a duas variantes cria problemas importantes:
- Qual variedade dentro de cada grupo seria escolhida como padrão?
- Qual seria a base científica e social que justifica essa escolha?
- Como garantir que as variantes que não são escolhidas não fiquem de lado?
Criar um padrão com apenas duas variantes pode tornar o sistema mais centralizado, menos democrático e menos eficaz no ensino. Nas políticas linguísticas, reduzir o cabo-verdiano a duas formas levanta grandes desafios. Spolsky (2004) acredita que políticas linguísticas boas devem basear-se na aceitação social e na participação de quem fala a língua. Em Cabo Verde, Veiga (2015) diz que a oficialização e o ensino do cabo-verdiano exigem uma abordagem que respeite a diversidade das ilhas. Escolher apenas duas variantes normativas pode causar resistências no ensino e dificultar a aplicação prática. Autores portugueses como Mateus et al. (2003) alertam que modelos educacionais baseados em normas linguísticas que não representam bem a realidade tendem a dar resultados ruins, especialmente em ambientes onde várias línguas convivem.
5. Razões epistemológicas
Do ponto de vista do conhecimento científico:
- Simplificar muito um objeto complexo leva a teorias fracas.
- A linguística moderna valoriza:
a) a variação;
b) a diversidade;
c) os modelos com vários centros.
Assim, reduzir o cabo-verdiano a duas variantes contradiz as abordagens atuais da linguística do contacto, da crioulística e da sociolinguística crítica. Do ponto de vista epistemológico, diminuir a complexidade do cabo-verdiano a duas formas vai contra os princípios da linguística contemporânea. Hymes (1974) e Blommaert (2010) defendem métodos que reconhecem a diversidade e os contextos reais em que a língua é usada. Na crioulística moderna, DeGraff (2005) critica modelos que tratam línguas crioulas como se fossem iguais, argumentando que essa visão reflete mais as limitações dos teóricos do que a realidade linguística. Assim, uma abordagem com apenas duas variantes é fraca metodologicamente, pois reduz a compreensão científica do fenómeno linguístico cabo-verdiano.
6. Alternativa mais adequada
Em vez de duas variantes rígidas, a alternativa mais adequada é:
- reconhecer várias variedades insulares;
- adotar um modelo pluricêntrico;
- trabalhar com:
a) normas de referência flexíveis;
b) princípios de intercompreensão;
c) respeito pela diversidade linguística interna.
A alternativa mais consistente é adotar um modelo pluricêntrico, que é usado em línguas como o português, o espanhol e o inglês. Segundo Clyne (1992), modelos pluricêntricos aceitam várias normas legítimas dentro de uma mesma língua. Manuel Veiga (2009) sugere que o cabo-verdiano deve ser visto como uma língua única, com várias normas de referência insulares, que promovem a compreensão mútua e evitam hierarquias. Essa perspetiva também é defendida por Calvet (1999), que argumenta que políticas linguísticas justas devem refletir a realidade diversa das comunidades que falam.
Final
Não devemos considerar apenas duas variantes do cabo-verdiano porque isso:
- distorce a realidade linguística;
- simplifica de forma errada a história;
- nega identidades locais;
- cria problemas políticos e educacionais;
- dificulta a base científica da análise.
Considerar apenas duas variantes do cabo-verdiano é insuficiente em vários aspetos: linguístico, histórico, sociolinguístico, político, educacional e epistemológico. Essa redução simplifica demais uma realidade complexa e pode levar a exclusões simbólicas e reais. Como defendem Mufwene (2001) e Veiga (2015), o cabo-verdiano deve ser entendido como uma língua pluricêntrica e diversa, cuja variedade não é uma fraqueza, mas um recurso cultural e científico essencial.
Referências bibliográficas
- Almada Duarte, D. (1998). Bilinguismo ou Diglossia? Praia: Spleen.
- Bickerton, D. (1981). Roots of Language. Ann Arbor: Karoma.
- Blommaert, J. (2010). The Sociolinguistics of Globalization. Cambridge: Cambridge University Press.
- Bourdieu, P. (1991). Language and Symbolic Power. Cambridge: Polity Press.
- Calvet, L.-J. (1999). Pour une écologie des langues du monde. Paris: Plon.
- Carreira, A. (1983). Cabo Verde: Formação e Extinção de uma Sociedade Escravocrata. Lisboa: IICT.
- Clyne, M. (1992). Pluricentric Languages. Berlin: Mouton de Gruyter.
- DeGraff, M. (2005). Linguists’ Most Dangerous Myth. Language in Society, 34(4).
- Hymes, D. (1974). Foundations in Sociolinguistics. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.
- Labov, W. (1972). Sociolinguistic Patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.
- Lang, J. (2012). Les langues créoles. Paris: Armand Colin.
- Lucchesi, D. (2009). História do Contato entre Línguas. Salvador: EDUFBA.
- Mateus, M. H. et al. (2003). Gramática da Língua Portuguesa. Lisboa: Caminho.
- Mufwene, S. (2001). The Ecology of Language Evolution. Cambridge: Cambridge University Press.
- Spolsky, B. (2004). Language Policy. Cambridge: Cambridge University Press.
- Tolentino, C. (2007). Identidade, Cultura e Língua em Cabo Verde. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional.
- Veiga, M. (2004). A Construção do Bilinguismo. Praia: ICL.
- Veiga, M. (2009). O Cabo-verdiano e a Política Linguística. Praia: Uni-CV.
- Veiga, M. (2015). Língua Cabo-verdiana: Perspetivas de Padronização. Praia: ICL.

